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Fluidoterapia

Biblioteca clínica de fluidoterapia veterinária — consulta rápida e apoio à inteligência artificial do TRANSCREVET.

1 · Conceitos Básicos

Definição

Fluidoterapia é a administração de soluções parenterais com o objetivo de restabelecer ou manter o equilíbrio hidroeletrolítico e ácido-básico, garantindo volume intravascular adequado, perfusão tecidual e função orgânica normal.

Objetivos

  • Restabelecer o volume circulante e a volemia
  • Corrigir déficits de hidratação e desequilíbrios eletrolíticos
  • Manter hidratação e demandas metabólicas durante períodos de anorexia ou NPO
  • Melhorar perfusão periférica e função de órgãos vitais
  • Fornecer via para administração de medicamentos e nutrição parenteral

Principais indicações

  • Desidratação por qualquer causa (vômitos, diarreia, poliúria, redução de ingestão)
  • Choque hipovolêmico, séptico ou traumático
  • Hipotensão arterial e má perfusão periférica
  • Perdas contínuas (drenagens, hemorragias, perdas insensíveis)
  • Manutenção durante procedimentos cirúrgicos e anestesia
  • Suporte a pacientes com insuficiência renal, hepática ou cardíaca
  • Correção de acidose metabólica ou alcalose

Principais contraindicações

  • Sobrecarga volêmica grave sem controle (edema agudo de pulmão, ICC descompensada)
  • Anúria refratária sem monitoramento rigoroso de função renal
  • Hipervolemia iatrogênica preexistente
  • Administração inadequada sem avaliação clínica (risco de edema, hiponatremia)
Avaliação clínica contínua

A avaliação clínica contínua é essencial: turgor cutâneo, mucosas, frequência cardíaca, pulso, diurese, peso corporal e auscultação cardiopulmonar devem ser monitorados de forma serial para evitar sub ou sobrecarga hídrica.

2 · Necessidade de Manutenção

🐶 Cães

40 a 60 mL/kg/dia

A necessidade de manutenção em cães considera perdas insensíveis (respiratórias e cutâneas) e perdas de água nas fezes e urina. Animais em anestesia, hipertermia ou com perdas aumentadas necessitam ajustes.

🐱 Gatos

40 a 60 mL/kg/dia

Gatos apresentam menor tolerância a volumes excessivos de fluidos intravenosos. Monitoramento rigoroso de frequência respiratória, ausculta pulmonar e peso é fundamental para evitar sobrecarga.

Manutenção

Volume necessário para cobrir as perdas normais de água e eletrólitos em um animal em homeostasia, sem perdas adicionais.

Reposição

Volume adicional necessário para corrigir déficits prévios de desidratação, choque ou perdas anormais (vômitos, diarreia, drenagens).

Monitoramento

Acompanhamento serial de peso, diurese, frequência cardíaca, pulso, turgor cutâneo, pressão arterial e ausculta pulmonar para ajustar o plano fluidoterápico.

3 · Déficit de Hidratação

GrauPercentualSinais clínicos
Discreta5%Perda de elasticidade cutânea leve; mucosas levemente secas; olhos normais. Correção geralmente via SC (subcutânea) ou VO, se o paciente tolera.
Moderada6 a 8%Turgor cutâneo claramente reduzido; mucosas secas e pegajosas; olhos levemente enrugados; taquicardia compensatória. Indicação de fluidoterapia IV ou IO.
Grave10 a 12%Turgor cutâneo muito prolongado; mucosas muito secas; olhos profundamente enrugados (sunken eyes); taquicardia intensa; pulso fraco; hipotensão; letargia / prostração. Fluidoterapia agressiva e urgente.

Cálculo do Déficit

Déficit (mL) = Peso (kg) × % desidratação × 10

Cão de 10 kg com 8% de desidratação: 10 × 8 × 10 = 800 mL de déficit total.

O déficit calculado representa o volume de fluido necessário para restabelecer a hidratação normal, sem considerar manutenção ou perdas contínuas. Deve ser corrigido em etapas (geralmente 25% a cada 1–2h), com reavaliação clínica.

4 · Perdas Contínuas

Vômitos

Perda de fluido ácido, cloreto e potássio. Causa alcalose metabólica hipocloremica e hipocalemia. Deve ser quantificado o volume e a frequência.

Estimativa: Estimar volume vomitado (mL) por episódio e multiplicar pela frequência/hora.

Diarreia

Perda de fluido alcalino, bicarbonato e potássio. Causa acidose metabólica e desidratação rápida, especialmente em animais de pequeno porte e filhotes.

Estimativa: Estimar peso de fezes líquidas ou volume perdido; geralmente 10–30 mL/kg/dia em diarreia moderada.

Poliúria

Perda excessiva de água livre e eletrólitos, comum em DRC, diabetes mellitus e diabetes insipidus. Pode levar a desidratação crônica e eletrólitos alterados.

Estimativa: Diurese normal: 1–2 mL/kg/h. Poliúria: > 2–3 mL/kg/h. Volume excedente deve ser reposto.

Drenagens

Drenos torácicos, abdominais ou de feridas podem remover volumes significativos de fluido proteico e eletrólitos. Drenos torácicos também podem remover colágeno e células.

Estimativa: Medir volume de drenagem a cada 4–6h e repor com solução isotônica adequada.

Hemorragias

Perda de sangue inteiro resulta em perda simultânea de plasma, hemácias e proteínas. Choque hemorrágico exige reposição rápida com cristaloides, coloides ou transfusão sanguínea.

Estimativa: Estimar volume sanguíneo perdido (sangue total ~ 80–90 mL/kg). Reposição de 3–4× o volume perdido em cristaloides ou 1× em coloides/sangue.

Correção adicional

Perdas contínuas devem ser avaliadas, quantificadas e repostas continuamente. Ignorar perdas contínuas leva a subreposição e piora da desidratação, choque e disfunção orgânica.

Estratégia de correção

  • Quantificar perdas a cada 4–6 horas (volume de vômito, diarreia, drenagem, diurese excessiva, sangue).
  • Repor volumes perdidos com soluções adequadas ao tipo de perda (ex: Ringer Lactato para perdas gastrointestinais).
  • Avaliar eletrolíticos séricos para ajustar solução conforme necessidade de Na+, K+, Cl− e HCO3−.
  • Em perdas prolongadas (> 24h), considerar suplementação de potássio se houver hipocalemia.

5 · Fluidoterapia na Emergência

Choque Hipovolêmico

Redução aguda do volume intravascular por hemorragia, desidratação grave, queimaduras ou perdas abruptas de plasma.

Recomendação

Administração rápida de cristaloides isotônicos (Ringer Lactato ou NaCl 0,9%): 90 mL/kg (cão) ou 60 mL/kg (gato) em bolus, fracionando em ¼ do volume e reavaliando perfusão, pulso e PA a cada 15 min. Se refratário, adicionar coloides (hetastarch, dextrans).

Cautelas

Animais com miocardiopatia ou insuficiência cardíaca podem não tolerar volumes abruptos — usar bolus menores (5–10 mL/kg) e monitorar ausculta pulmonar.

Choque Séptico

Distribuição anormal do volume sanguíneo por vasodilatação sistêmica, aumento da permeabilidade capilar e perda de fluido para o interstício.

Recomendação

Cristaloides isotônicos: 60–90 mL/kg (cão) ou 40–60 mL/kg (gato) em bolus fracionados. Associar coloides sintéticos se hipoalbuminemia ou edema. Iniciar antibióticos de amplo espectro imediatamente.

Cautelas

Risco de edema pulmonar e perda de fluido para o terceiro espaço. Monitorar frequência respiratória, SpO2 e ausculta pulmonar. Coloides podem ser preferidos após resuscitação inicial.

Desidratação Grave

Perda de > 10% do peso corporal em fluidos, com sinais de hipoperfusão e comprometimento de órgãos.

Recomendação

Correção do déficit em 4–6 horas (não ultrapassar 12h): metade do déficit nas primeiras 2–4h, restante nas 2–4h seguintes. Associar manutenção e reposição de perdas contínuas.

Cautelas

Correção muito lenta mantém hipoperfusão. Correção muito rápida pode causar edema cerebral (especialmente em hipernatremia crônica).

Hipotensão

Pressão arterial sistêmica reduzida (PAS < 90 mmHg ou MAP < 65 mmHg) por redução de débito cardíaco, volemia ou resistência vascular.

Recomendação

Administrar cristaloides em bolus (15–20 mL/kg) e reavaliar PA a cada 10–15 min. Se hipotensão persistente sem hipovolemia, considerar vasopressores (dopamina, norepinefrina) após garantir volemia.

Cautelas

Descartar causas não relacionadas à volemia (anestesia profunda, bloqueios, sepse tardia, miocardiopatia) antes de infundir volumes excessivos.

A decisão terapêutica final cabe ao médico-veterinário responsável. Protocolos de emergência devem ser adaptados ao paciente, às comorbidades e ao contexto clínico individual.

6 · Tipos de Soluções

Cristaloide

Ringer Lactato

Composição: Na+ 130 mEq/L, K+ 4 mEq/L, Ca2+ 3 mEq/L, Cl− 109 mEq/L, Lactato 28 mEq/L. Solução isotônica, balanceada.

Indicações

  • Reposição de perdas gastrointestinais (vômito, diarreia)
  • Manutenção e choque hipovolêmico leve a moderado
  • Acidose metabólica (lactato metabolizado a bicarbonato)

Vantagens

  • Balanceada — menos risco de hipercloremia
  • Lactato convertido a bicarbonato no fígado
  • Bem tolerada em cães e gatos
  • Custo acessível e amplamente disponível

Limitações

  • Contraindicada em lactic acidosis (fígado comprometido)
  • Não repõe albumina ou proteínas
  • Maior volume necessário vs. coloides para mesmo efeito volemico
  • Pode precipitar hipocalcemia em pacientes com hiperfosfatemia
Cristaloide

Ringer Simples (Solução de Ringer sem lactato)

Composição: Na+ 147 mEq/L, K+ 4 mEq/L, Ca2+ 4 mEq/L, Cl− 155 mEq/L. Isotônica, não balanceada.

Indicações

  • Manutenção básica quando Ringer Lactato não disponível
  • Reposição de perdas em animais com função hepática grave (não metaboliza lactato)

Vantagens

  • Disponível em muitos locais
  • Não contém lactato (vantagem em insuficiência hepática)

Limitações

  • Não balanceada — risco de hipercloremia ácido metabólica
  • Sem buffer (lactato ausente)
  • Menos ideal para acidose metabólica
Cristaloide

NaCl 0,9% (Salino Fisiológico)

Composição: Na+ 154 mEq/L, Cl− 154 mEq/L. Isotônica, não balanceada, hiperclorêmica relativa.

Indicações

  • Diluição de medicamentos
  • Reposição rápida em emergências quando outras soluções indisponíveis
  • Pacientes com hiponatremia severa (uso controlado)
  • Lavagem de feridas e cavidades

Vantagens

  • Universalmente disponível
  • Compatível com praticamente todos os medicamentos
  • Isotônico seguro para administração IV/SC

Limitações

  • Não balanceada — acidose hiperclorêmica com volumes grandes
  • Sem potássio, cálcio ou buffer
  • Não adequado para manutenção prolongada sem suplementação
  • Piora da acidose em pacientes com DRC ou choque
Cristaloide

Plasma-Lyte

Composição: Na+ 140 mEq/L, K+ 5 mEq/L, Mg2+ 1,5 mEq/L, Cl− 98 mEq/L, acetato 27 mEq/L, gluconato 23 mEq/L. Solução balanceada, isotônica.

Indicações

  • Reposição de grandes volumes (cirurgia, trauma, choque)
  • Pacientes com risco de acidose hiperclorêmica
  • Terapia de manutenção prolongada

Vantagens

  • Balanceada — menor risco de distúrbios ácido-base
  • Acetato metabolizado a bicarbonato (independentemente da função hepática)
  • Contém magnésio — benefício em pacientes hipomagnesêmicos
  • Menor incidência de acidose vs. NaCl 0,9%

Limitações

  • Custo maior que Ringer Lactato e NaCl 0,9%
  • Menos disponível em algumas regiões
  • Acetato pode causar vasodilatação em altas doses
Coloide

Coloides — Hidroxietilamido (Hetastarch, Pentastarch)

Composição: Polímeros de amido de milho (MW 450–600 kDa) suspensos em solução salina ou balanceada. Permanecem no intravascular por horas.

Indicações

  • Choque refratário a cristaloides
  • Hipoalbuminemia grave (< 1,5–2,0 g/dL)
  • Edema generalizado (perda de oncótica)
  • Hemorragia aguda como adjuvante à reposição sanguínea

Vantagens

  • Volume efetivo intravascular prolongado
  • Menor volume necessário para expansão volemica vs. cristaloides
  • Melhora da oncose e redução de edema
  • Útil quando cristaloides não mantêm PA

Limitações

  • Custo elevado
  • Risco de coagulopatia (interferência com fator de von Willebrand e agregação plaquetária)
  • Contraindicado em insuficiência renal grave (acúmulo nos túbulos renais)
  • Risco de reações anafiláticas (raro, mas documentado)
  • Não repõe eletrólitos ou nutrientes
Coloide

Coloides — Dextrans

Composição: Polissacarídeos de glicose (Dextran 40 ou 70) em solução salina. Aumentam a viscosidade do plasma e expandem o volume intravascular.

Indicações

  • Choque hipovolêmico como adjuvante
  • Melhora da microcirculação (Dextran 40)

Vantagens

  • Expansão volemica efetiva
  • Dextran 40 reduz agregação plaquetária e melhora fluxo sanguíneo

Limitações

  • Alto risco de coagulopatia (inibe agregação plaquetária)
  • Reações anafiláticas mais frequentes que hetastarch
  • Contraindicado em insuficiência renal
  • Raramente usado na prática clínica veterinária atual devido a riscos

7 · Monitoramento da Fluidoterapia

ParâmetroFrequênciaObjetivoAlerta
Peso corporalA cada 4–6h (ou a cada 1–2h em emergência)Aumento de peso > 5% sugere sobrecarga volêmica. Perda de peso sugere subreposição.Ganho > 5–10% do peso basal em < 24h — risco de edema pulmonar / congestão.
Pressão arterialA cada 15–30 min (emergência) ou 4–6h (manutenção)PAS > 90 mmHg, MAP > 65 mmHg. Indica perfusão adequada.PA persistentemente baixa após fluidos — considerar coloides ou vasopressores.
DiureseContínua (sonda urinária) ou a cada 4–6h (coleção manual)1–2 mL/kg/h em cães e gatos. Ausência de urina após ressuscitação sugere LRA ou obstrução.Oligúria (< 0,5 mL/kg/h) ou anúria requer intervenção imediata.
Frequência cardíacaA cada 15–30 min (emergência) ou 4h (manutenção)Redução da taquicardia indica melhora da perfusão. Normalização do pulso.Taquicardia persistente ou bradicardia súbita requer investigação (sobrecarga, hipoxemia, arritmia).
Frequência respiratóriaA cada 15–30 min (emergência) ou 4h (manutenção)Normalização da FR indica melhora da perfusão tecidual e redução de acidose.Taquipneia súbita, esforço respiratório ou cianose — suspeitar edema pulmonar / sobrecarga.
Hidratação (turgor cutâneo + mucosas)A cada 2–4hRetorno do turgor cutâneo (< 1s), mucosas úmidas e rosadas.Turgor cutâneo persistemente reduzido após fluidos — reconsiderar diagnóstico ou perdas contínuas.
Perfusão periféricaA cada 15–30 minTempos de enchimento capilar (TEC) < 2s, pulso palpável e forte, membranas mucosas rosadas.TEC > 2s ou pulso fraco persistente — hipoperfusão não resolvida.

Sinais de Sobrecarga Volêmica

  • Taquipneia e esforço respiratório
  • Crepitações pulmonares à ausculta
  • Edema subcutâneo (dependente ou generalizado)
  • Aumento súbito de peso corporal
  • Dilatação de jugulares ou congestão venosa
  • Hipotensão paradoxal com volume excessivo (disfunção miocárdica)
  • Vômitos e náusea (estímulo de volume)
  • Oligúria por insuficiência cardíaca congestiva

Conduta: Reduzir ou suspender fluidos, elevar cabeceira, considerar diuréticos (furosemida) se edema pulmonar, monitorar frequência respiratória e ausculta pulmonar a cada 15 min.

As informações desta biblioteca possuem finalidade educacional e de apoio clínico. A prescrição e condução da fluidoterapia devem sempre ser realizadas pelo médico-veterinário responsável pelo paciente.

Referências
  • DiBartola — Fluid, Electrolyte and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice
  • Ettinger & Feldman — Textbook of Veterinary Internal Medicine
  • Nelson & Couto — Small Animal Internal Medicine
  • BSAVA Manual of Canine and Feline Emergency and Critical Care
  • WSAVA Clinical Guidelines

As informações desta biblioteca possuem finalidade educacional e de apoio clínico. A prescrição e condução da fluidoterapia devem sempre ser realizadas pelo médico-veterinário responsável pelo paciente.